Os Bondes de Porto Alegre…

Segundo minha mãe, eu era o quindinzinho do bonde… pelo menos para as meninas do Colégio Americano…

Os Bondes de
PORTO ALEGRE
Rio Grande do Sul
BRASIL
por
Allen Morrison
texto traduzido ao português por
José A. Rodrigues
O Rio Grande do Sul é o estado no extremo sul do Brasil e tem o tamanho e a forma aproximados da Polônia. Sua capital, Porto Alegre, está a beira do Lago Rio Guaíba, ao norte da Lagoa dos Patos, uma enorme baía interior com cerca de 200 km de comprimento e 60 km de largura. A população da cidade era de cerca de 100 mil habitantes em 1900. Hoje há mais de 3 milhões em sua região metropolitana.Porto Alegre sempre foi um próspero porto e dois negociantes locais, um brasileiro chamado Estácio da Cunha Bittencourt e um francês chamado Emílio Gembembre, abriram uma linha de bondes com tração animal entre o cais e o Menino Deus em primeiro de novembro de 1864 [veja o mapa]. Esta foi a segunda linha de bondes do Brasil, precedida apenas pela linha da Tijuca, no Rio de Janeiro, aberta em 1859. Diziam que os veículos eram de dois andares, mas nada se sabe de sua origem e nenhuma imagem deles foi encontrada. A operação terminou no inicio de 1872.Uma nova companhia, a Carris de Ferro Porto-Alegrense, fundada em 19 de junho de 1872, adquiriu novos bondes da companhia John Stephenson em Nova York, colocou novos trilhos de um metro de bitola ao longo da mesma rota, e abriu uma nova linha em 4 de janeiro de 1873. A garagem da CFPA ficava na Avenida João Pessoa [veja o mapa] [col. Biblioteca Municipal, Porto Alegre]:

A litografia abaixo mostra um bonde passando em frente a uma exposição brasileiro-alemã, em 1881 [col. Metropolitan Museum of Art, Nova York]:

Uma terceira companhia, Carris Urbanos de Porto Alegre, estabeleceu uma nova bitola padrão de 1.435 mm para os trilhos, e abriu novas rotas para os bondes em outras partes da cidade nos anos 1880. Este cartão-postal mostra ambos, a bitola padrão (à esquerda) e a bitola de um metro (à direita), na Rua dos Andradas, por volta de 1900 [veja o mapa] [col. AM]:

Em 24 de janeiro de 1906 a CFPA e a CUPA se fundiram e formaram a nova Companhia Força e Luz Porto-Alegrense (CFLPA), que a partir de então passou a operar todas as linhas de bondes e os serviços de distribuição de energia elétrica na cidade. CFLPA iniciou a eletrificação das linhas de bonde, sedimentou a bitola padrão de 1.435 mm para os trilhos, e, em 22 de agosto de 1906, comprou 37 bondes elétricos da United Electric Co. em Preston, Inglaterra. (A United Electric receberia o nome de English Electric em 1918, e se associou com a Dick, Kerr & Co.) A fotografia abaixo, tirada na Inglaterra antes do embarque para o Brasil, mostra um dos 35 pequenos veículos montados com 8 filas de assentos, que foram numerados de 1 a 35 [col. AM]:

Os bondes 36 e 37 eram bondes com dois andares, com oito bancos no primeiro piso, e sete filas de assentos no segundo. Esta foto do 36 foi tirada na Inglaterra [col. AM]:

Os bondes com dois andares 36 e 37 inauguraram a eletrificação do sistema de bondes em Porto Alegre em 10 de março de 1908. A imagem do cartão-postal abaixo mostra o mesmo pedaço da Rua dos Andradas já mostrada acima, mas após a eletrificação [veja o mapa]. O segundo andar do bonde em primeiro plano recebeu cobertura. Um veículo simples (apenas um andar) se aproxima à distância [col. AM]:

Este cartão-postal abaixo mostra um dos bondes de um andar na Rua Voluntários da Pátria [veja o mapa] [col. AM]:

Entre 1909 e 1920 a United Electric enviou para a CFLPA mais dois bondes de dois andares, numerados de 38 e 39, oito carros pequenos e abertos, numerados de 40 a 47, e quarenta carros maiores e fechados, numerados de 48 a 87. Aqui uma foto, feita pelo fabricante, do bonde 67, pertencente ao grupo mais tardio [col. AM]:

Nos anos 1920, os veículos abertos foram reformados e fechados, e os quatro com dois andares foram reduzidos a veículos simples. O bonde 70, abaixo, fotografado em 1957, é da série 48 a 87, mostrada no bonde 67 acima. “T” identifica a linha TERESÓPOLIS [veja omapa] [William Janssen]:

E aqui está uma nova foto do 70 da United Electric na linhaTERESÓPOLIS [veja o mapa] em 1957 [William Janssen]:

Em 1925 a CFLPA comprou dez bondes fechados da Ateliers de Construction Energie, de Marcinelle, Bélgica: cinco veículos com eixo simples, numerados de 88 a 92, e cinco com eixo duplo, numerados de 101 a 105. A fotografia abaixo mostra alguns destes veículos. A notar a circulação à esquerda – estilo inglês – dos bondes como dos automóveis [col. AM]:

O governo brasileiro dissolveu a CFLPA em 1926, e formou empresas separadas para transporte e energia elétrica: o novo operador das linhas de bonde foi a Companhia Carris Porto-Alegrense. CCPA foi adquirida dois anos mais tarde por um conglomerado americano, a Electric Bond & Share, que iniciou um programa de importação de bondes que transformaria Porto Alegre numa Meca para os americanos entusiastas de transporte por bonde nos anos 1950 e 1960.

Em 31 de dezembro de 1928 a nova CCPA-EBS comprou 20 veículos com eixo duplo da J. G. Brill, na Filadélfia, Estados Unidos, que foram numerados de 106 a 125 em Porto Alegre [col. AM]:

O bonde 117, da Brill, havia sido levemente alterado na época em que foi fotografado, na Avenida João Pessoa, em 1957. O letreiro do bonde mostra “MENINO DEUS” [veja o mapa] [William Janssen]:

Em 1929 a CCPA adquiriu 32 bondes “Birney”, usados, em Baltimore, Estados Unidos, que foram numerados de 126 a 157, e mais oito bondes do mesmo modelo, da Eastern Massachusetts Street Railway, próxima de Boston, Estados Unidos, que foram numerados de 158 a 165. Todos haviam sido construídos pela Brill, nos anos 1920. Em 1933, CCPA construiu 10 bondes tipo Birney, que foram chamados Millers (por um engenheiro da CCPA), e numerados de 166 a 175. E em 1934 a CCPA adquiriu mais 20 bondes usados da Richmond Railways em Staten Island, na cidade de Nova York, que haviam sido construídos pela Osgood-Bradley em Massachusetts nos anos 1920. Eles passaram por uma profunda reforma em Porto Alegre, e foram numerados numa nova série de 1 a 20 [Foster M. Palmer]:

Esta fotografia de 1957 mostra o carro de Staten Island número 12 com uma dramática mudança de cores. O destino do bonde está assinalado para “AUXILIADORA” [veja o mapa] [William Janssen]:

Em 1936 a CCPA comprou mais 20 bondes da Eastern Massachusetts Street Railway – veículos grandes com quatro eixos, construídos em 1923 pela Kuhlman – que foram numerados de 21 a 40. Em 1937 a CCPA juntou 14 de seus Baltimore Birneys e construiu sete veículos com eixos duplos e lado curvado, que foram apelidados de Texanos (por seu desenhista texano), e numerados de 41 a 47. O número 47 está assinalado “DOM PEDRO II” [veja o mapa] [William Janssen]:

O ano de 1940 trouxe quatro bondes grandes de York, Pennsylvania, Estados Unidos. Três carros “Master-Unit” construídos pela Brill foram numerados de 176 a 178, e mais tarde de 101 a 103; um “Electromobile” montado pela Osgood-Bradley foi numerado de 179, e depois 100. O carro Brill 102 ex-177 foi fotografado na Av. Protásio Alves, próximo ao final da linhaPETRÓPOLIS [veja o mapa], em janeiro de 1957 [William Janssen]:

1940 também trouxe uma dúzia de bondes com 12 janelas, que a Perley Thomas Car Works in High Point (North Carolina) montou em 1925 para a cidade de Miami, Estados Unidos. Eles receberam os números 180 a 191 em Porto Alegre, e mais tarde foram renumerados para 88 a 99. Aqui o bonde 98, ex-Miami, designado para a linha AZENHA [veja o mapa], em 1968 [col. www.tra.ms]:

Finalmente, 25 veículos com eixo duplo, construídos pela Osgood-Bradley em 1927 para a Worcester Street Railway em Massachusetts, foram enviados para Porto Alegre em 1946. Os novos números que receberam em Porto Alegre foram de 126 a 150. Este bonde ex-Worcester número 137 foi fotografado em 1957 [William Janssen]:

Os 130 veículos americanos, 89 ingleses e 10 belgas fizeram Porto Alegre parecer como o maior museu de bonde operando no mundo. Aqui está uma passagem da CCPA – “válida até 1968”:

e um outro tipo de passagem [col. AM]:

Os veículos americanos tomaram conta da operação da cidade em 19 de fevereiro 1954. O novo Departamento Autônomo de Transportes Coletivos informou que 89 milhões de passageiros foram transportados pelos 105 bondes em 1961. O DATC decidiu substituir os bondes por ônibus, e inaugurou uma linha de tróleibus em 7 de dezembro de 1963: cinco tróleis Massari iniciaram as linhas Gazômetro e Menino Deus, ao longo das ruas onde veículos puxados por mulas haviam iniciado o serviço de bondes 102 anos antes. A linha de tróleibus foi encerrada em 1969, e o DATC estipulou que o última linha de bondes de Porto Alegre se encerraria em 8 de março de 1970. Com exceção da rede de Santos, em 1971, este foi o último grande sistema de bondes do Brasil a ser encerrado.

A maior parte da frota de bondes de Porto Alegre virou sucata, mas o DATC salvou o “Texano” 46, e alguns veículos Brill, incluindo o 113 e o 123. O número 113, que fez a última viagem de 1970, no momento está no Museu Joaquim José Felizardo, na Rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa de Porto Alegre. O 123 atualmente é um escritório de recepção da sede da Companhia Carris, na Rua Albion, zona leste da cidade, mas durante os anos 1990 esteve em exposição na Praça XV de Novembro [veja o mapa]. A fotografia abaixo foi tirada em 1994. Um pouco dos trilhos permaneceu, mas a linha elétrica já havia desaparecido há tempos [Pedro Souza]:

A imagem abaixo, de dois veículos Brill não identificados e do “Texano” 46, foi tirada em outubro de 2006, em um parque próximo de Gravataí, 30 quilômetros a leste de Porto Alegre [Sergio Martire]:

Planos para a reativação de uma linha turística de bondes foram anunciados várias vezes desde o encerramento do serviço em 1970, mas até agora nada foi feito [veja a BIBLIOGRAFIA abaixo].

Em 11 de abril de 1982 os primeiros 600 metros da estrada de ferro pneumática Aeromóvel começou a transportar experimentalmente passageiros ao longo da Av. Loureiro da Silva. Os primeiros 27 km de um trem elétrico suburbano, operado pela Trensurb, iniciou em 4 de março de 1985. A bitola dos trilhos é de 1.600 mm, e os trens foram construídos pela Nippon Sharyo no Japão. Ambas as linhas foram estendidas e operam hoje; o Aeromóvel continua em caráter experimental.

 

 

BIBLIOGRAFIA
(por ordem de publicação)

Capítulos sem nome em Brazil-Ferro-Carril (Rio de Janeiro), 1/4/1918, p. 177; e 20/11/1930, p. 540. Descrição dos bondes de Porto Alegre.

“J. G. Brill Company Ships Cars to South America” em Electric Railway Journal (Nova York), 5/1929, p. 625. Descrição detalhada dos novos bondes Brill. Três fotografias.

“A Construção de Bondes em Porto Alegre” em Revista das Estradas de Ferro (Rio de Janeiro), 15/51933, p. 133. Os carros “Miller”.

Odilo Otten. Planta da Cidade de Porto Alegre. Porto Alegre, 1942. Mapa na escala de 1:20,500 mostra as linhas de bonde.

Archymedes Fortini. Porto Alegre Através dos Tempos. Porto Alegre, 1962. O capítulo “Da Maxambomba ao Elétrico,” pp. 111-12, relata a historia dos bondes da cidade.

Ray DeGroote. Companhia Carris Porto Alegrense, Porto Alegre, Brazil. Mapa de entusiasta das linhas de bonde em maio de 1963. Detalhes dos itinerários.

Walter Spalding. Pequena História de Porto Alegre. Porto Alegre, 1967. “Transportes,” pp. 135-8.

A. F. S. Pereira. “Os Bondes” em Correio do Povo (Porto Alegre), 17/5/1970, p. 1. O último bonde da cidade.

Asociación Uruguaya Amigos del Riel. Red Tranviaria de Porto Alegre: Cia Carris Porto Alegrense, 1946. Montevideu, 1977. Grande mapa das linhas (68 x 114 cm) producido pelo grupo de entusiastas. Escala 1:10,000.

Alberto André. “Breve História dos Bondes a Burro e Elétricos da Cidade” em Correio do Povo (Porto Alegre), 1980/ 9/21, 33. O último (e melhor) artigo de uma série. O autor publicou outros artigos ilustrados no Correio do Povo em 25/9/1966 e 18/6/1972.

Mauricio Ovadia. Cento e Onze Anos de Transporte: Do Bonde de Mulas ao Transporte Seletivo. Porto Alegre, 1980. Este texto de 167 páginas, escrito pelo diretor da companhia de ônibus, fala sobretudo das finanças. Há mapas nas páginas 94 e 95 que mostram a circulação dos bondes à esquerda – estilo inglês.

“Gaúchos voltam a usar bondes no trânsito” em Tribuna da Imprensa (Porto Alegre), 15/7/1988, p. 3. Projeto de linha turística com o carro Brill 113.

Allen Morrison. The Tramways of Brazil: a 130-Year Survey. Nova York, 1989. Meu capítulo Rio Grande do Sul (texto em inglês) apresenta mais dados sobre os bondes de Porto Alegre.

Companhia Carris Porto-Alegrense. Blog do Museu Memória Carris. História, informações, fotografias do transporte público em Porto Alegre.

“Trecho com bonde histórico será implantado no centro de Porto Alegre” em Portoimagem, janeiro de 2007. Novo projeto de linha turística.

 

 

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Veja The Tramways of Pelotas

Veja The Tramways of Rio Grande

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