{"id":4419,"date":"2013-09-15T08:26:01","date_gmt":"2013-09-15T11:26:01","guid":{"rendered":"http:\/\/paulopedott.com\/paulo\/?p=4419"},"modified":"2013-09-15T08:28:24","modified_gmt":"2013-09-15T11:28:24","slug":"o-mito-do-gaucho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/?p=4419","title":{"rendered":"O Mito do Ga\u00facho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">pelo Prof. Moacyr Flores<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria dos povos \u00e9 rica em manipula\u00e7\u00f5es de toda a esp\u00e9cie. Estas manipula\u00e7\u00f5es fazem parte da pol\u00edtica cultural de determinada \u00e9poca e do engajamento do historiador ou do literato. Muitas vezes os fatos s\u00e3o manipulados deliberadamente durante seu processo, ou outras vezes nas gera\u00e7\u00f5es posteriores que criam e forjam mitos de acordo com a religi\u00e3o, a filosofia ou o imagin\u00e1rio dos intelectuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gaucho-argentino.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4420\" alt=\"gaucho-argentino\" src=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gaucho-argentino.jpg\" width=\"516\" height=\"397\" srcset=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gaucho-argentino.jpg 516w, https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gaucho-argentino-145x111.jpg 145w\" sizes=\"auto, (max-width: 516px) 100vw, 516px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Her\u00f4doto, ao escrever sua Hist\u00f3ria, afirmou que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar nos poetas, porque eles, embora conhecendo os fatos, criam mitos e falseiam os acontecimentos em busca de uma feitura est\u00e9tica e grandiosa, como imprimiu Homero na Il\u00edada, com seu g\u00eanio insuper\u00e1vel. Homero relata em seu poema que a causa da guerra dos gregos contra Tr\u00f3ia foi o rapto de Helena por P\u00e1ris, que a levou para a cidade dos troianos. Her\u00f4doto desmancha o mito e mostra que P\u00e1ris levou Helena e o tesouro de Menelau para Salinas, no Egito, onde havia um templo de H\u00e9rcules que protegia a todos que nele se refugiassem. Ent\u00e3o por que a guerra contra Tr\u00f3ia? Her\u00f4doto explica que os troianos controlavam o estreito de Dardanelos, cobrando ped\u00e1gio dos navios gregos que atravessavam o estreito em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s suas col\u00f4nias no mar Negro. Os gregos atacaram Tr\u00f3ia para controlarem a navega\u00e7\u00e3o no estreito de Dardanelos, que liga o mar Egeu com o Negro. O historiador deve levantar o v\u00e9u di\u00e1fano da fantasia, estabelecendo uma verdade de acordo com a documenta\u00e7\u00e3o (Her\u00f4doto, 1985, p. 122-125).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lista de manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 grande: o inc\u00eandio de Roma atribu\u00eddo a Nero, a viagem de Marco Polo \u00e0 China, o protocolo dos s\u00e1bios de Si\u00e3o, a democracia norte-americana, o ataque a Pearl Harbor. No Brasil a lista aponta v\u00e1rios fatos: descobrimento por acaso do Brasil, o mito do bom selvagem, o bom governo de Maur\u00edcio de Nassau, os bandeirantes alargando fronteiras e a fundar cidades, a ra\u00e7a do ga\u00facho como formadora do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Her\u00f4doto tra\u00e7ou os limites entre a Literatura e a Hist\u00f3ria, estabelecendo que esta se faz atrav\u00e9s da pesquisa (historia, em grego), em busca da verdade de um fato, enquanto que aquela se constr\u00f3i com imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, em busca do belo. Infelizmente alguns amadores confundem a Literatura com a Hist\u00f3ria, a criatividade po\u00e9tica com o fato hist\u00f3rico, o mito com a realidade, ignorando que a busca da verdade \u00e9 um objetivo constante da constru\u00e7\u00e3o do saber hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ent\u00e3o, a Literatura n\u00e3o serve para a constru\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica? Desde 1930 que um grupo de historiadores produziram uma Nova Hist\u00f3ria, em torno da revista criada por Marc Bloch, adotando o princ\u00edpio de que tudo \u00e9 Hist\u00f3ria e que ela n\u00e3o existe por si mesma, a n\u00e3o ser que seja constru\u00edda pelo historiador. Assim, todo o romance, poesia, conto, fotografia, gravura, m\u00fasica, pintura podem ser fonte da Hist\u00f3ria, desde que contenham o imagin\u00e1rio da \u00e9poca do autor. Exemplificando: as pe\u00e7as de teatro escritas no per\u00edodo da escravid\u00e3o e que colocam o cotidiano dos escravos em cena, s\u00e3o documentos fundamentais para estabelecer o imagin\u00e1rio e a conjuntura durante o escravismo. No entanto, um drama escrito hoje sobre a escravid\u00e3o, n\u00e3o pode ser usado como fonte para o estudo hist\u00f3rico da escravid\u00e3o porque o autor est\u00e1 reproduzindo o imagin\u00e1rio de sua \u00e9poca e n\u00e3o a mentalidade dos senhores e escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lenda dourada do cavaleiro ga\u00facho, como her\u00f3i formador do Rio Grande do Sul, surgiu com a literatura rom\u00e2ntica no final do s\u00e9culo XIX. Conforme Jung &#8220;o mito do her\u00f3i \u00e9 o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo&#8221;. O her\u00f3i formador de todas as culturas possui elementos de um arqu\u00e9tipo universal: \u00e9 corajoso, hospitaleiro, honesto, sacrifica-se pelos amigos, luta contra o mal e n\u00e3o teme a morte. S\u00e3o atributos do her\u00f3i grego, do cavaleiro medieval, do formador do cl\u00e3 africano, do formador do cl\u00e3 dos \u00edndios e do ga\u00facho, tanto brasileiro, argentino ou uruguaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o do mito do ga\u00facho \u00e9 recente e envolve pessoas de etnias diferentes. \u00c9 comum encontrar descendentes de imigrantes alem\u00e3es, italianos, poloneses, judeus, \u00e1rabes e japoneses com indument\u00e1ria ga\u00facha (pilchas) em dan\u00e7as coreografadas e falando palavras do portugu\u00eas arcaico com sotaque que denuncia sua origem diversa da tradi\u00e7\u00e3o da Campanha platina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00edlio Coni, pesquisando a documenta\u00e7\u00e3o encontrou relatos sobre o ga\u00facho, que vivia no meio de \u00edndios pampeanos, roubando e matando o gado dos fazendeiros. Sua data mais antiga \u00e9 1617, &#8220;mozos perdidos&#8221; que viviam na proximidade de Santa F\u00e9, atual Argentina. Em 1642, o cabildo de Buenos Aires referiu-se a bandidos chamados de &#8220;cuatreros e vagabundos&#8221;, que assolavam os campos. Em 1686 os jesu\u00edtas registraram os vagos ou vagabundos que pilhavam as est\u00e2ncias das Miss\u00f5es. No in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII grupos de homens matavam o gado da Vacaria do Mar para tirar o couro, se pagavam imposto eram chamados de &#8220;faenero&#8221;, se n\u00e3o pagavam, eram &#8220;changadores&#8221; (Coni, 1969, p. 66-70).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1750 apareceram os termos ga\u00facho e gaud\u00e9rio para designar esses marginais que viviam da pilhagem na capitania de Rio Grande de S\u00e3o Pedro. Em 1800, os malfeitores da Campanha sul-rio-grandenses foram denominados de ga\u00fachos. Durante a \u00e9poca de safra, de novembro a mar\u00e7o, esses gaud\u00e9rios conseguiam emprego tempor\u00e1rio nos rodeios e domas nas fazendas de cria\u00e7\u00e3o de gado. Durante a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha o termo ga\u00facho tinha sentido pejorativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que esta disson\u00e2ncia entre a realidade e o mito do ga\u00facho? Os tradicionalistas e nativistas est\u00e3o conscientes da origem do ga\u00facho? Inicialmente temos que depurar o mito do ga\u00facho, que por ser um mito, torna-se denominador comum ou modelo para pessoas de diferentes tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mito n\u00e3o \u00e9 uma mentira, nem uma falsidade, \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o de uma realidade. Refere-se a uma exist\u00eancia hist\u00f3rica, pois ningu\u00e9m consegue falar ou escrever sobre uma coisa que n\u00e3o existiu. Assim, a constru\u00e7\u00e3o do ga\u00facho m\u00edtico partiu do real e se tornou plaus\u00edvel com referenciais hist\u00f3ricos, passando no decorrer do tempo a ser considerada como conhecida de todos, embora seja uma cria\u00e7\u00e3o que se processou lentamente, at\u00e9 se tornar an\u00f4nima, formando uma tradi\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Em pouco tempo o mito confunde-se com a tradi\u00e7\u00e3o, sendo aceito por todos porque a narrativa usa matrizes sociol\u00f3gicas do trabalho campeiro, na camaradagem galponera e na turbul\u00eancia das antigas revolu\u00e7\u00f5es e lutas na fronteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espa\u00e7o do ga\u00facho hist\u00f3rico era o Pampa argentino, uruguaio e sul-rio-grandense, mas a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria extrapolou o espa\u00e7o original, colocando o ga\u00facho em zona onde ele nunca existiu, como na \u00e1rea de coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, ou nos Campos de Viam\u00e3o, lugar de criadores e de tropeiros de mulas.<br \/>\nO regionalismo rio-grandense surgiu dentro da corrente do Romantismo, influenciada pelas id\u00e9ias de federa\u00e7\u00e3o dos liberais moderados e farroupilhas, que argumentavam que o Rio Grande do Sul era diferente das demais prov\u00edncias brasileiras por causa de seu clima, do seu meio f\u00edsico, da ra\u00e7a que formava a popula\u00e7\u00e3o, da economia e da sociedade militarizada em fun\u00e7\u00e3o da fronteira e da pecu\u00e1ria.<br \/>\nNo entanto, os viajantes estrangeiros referiram-se \u00e0 imagem do ga\u00facho hist\u00f3rico sem as met\u00e1foras po\u00e9ticas dos literatos rom\u00e2nticos, descrevendo a imagem possivelmente deformada pela vis\u00e3o europ\u00e9ia, de um tipo aguerrido e marginal \u00e0 sociedade organizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1771, Don Pablo Carbonell comunicou ao governador do Uruguai Don V\u00e9rtiz y Salcedo que enviou uma partida de soldados contra os gahuchos &#8220;por ver si pod\u00edan encontrar los malechores&#8221; (Jorge Becco, 1978, p. 73).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O viajante Auguste Saint-Hilaire, que esteve na prov\u00edncia do Rio Grande do Sul em 1820, em diversos trechos referiu-se ao ga\u00facho como bandido, marginal e pilhador, indiv\u00edduo sem p\u00e1tria que luta unicamente pelo saque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicolau Dreys, em 1839, informou que o ga\u00facho j\u00e1 estava mudando, mas se reunia em grupos de pessoas sem moral e sem lei, formando uma sociedade agine (sem mulher). Afirmou que, para a felicidade dos povoados e das est\u00e2ncias, os ga\u00fachos n\u00e3o gostavam de mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gauchos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4421\" alt=\"gauchos\" src=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gauchos.jpg\" width=\"570\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gauchos.jpg 570w, https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/gauchos-145x118.jpg 145w\" sizes=\"auto, (max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira fase do romantismo liter\u00e1rio seguiu o modelo que se caracterizou pelo personagem central chamado de monarca das coxilhas ou de campeiro, tendo como refer\u00eancia hist\u00f3rica a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. A trama \u00e9 urdida na vingan\u00e7a, os personagens sofrem pelo amor contrariado, o campo \u00e9 sempre melhor que a cidade, o her\u00f3i \u00e9 honesto, a natureza est\u00e1 presente com descri\u00e7\u00e3o da paisagem, os personagens falam uma linguagem regional e popular para salientar o aspecto nacional. Logo ap\u00f3s a independ\u00eancia do Brasil, os intelectuais se propuseram a criar uma literatura nacional diferente da de Portugal, usando tem\u00e1tica e linguagem regional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa sociedade guerreira com lutas de fronteira, baseando sua economia na pecu\u00e1ria extensiva, n\u00e3o havia espa\u00e7o para a produ\u00e7\u00e3o intelectual, obrigando a poetisa Maria Clem\u00eancia da Silveira Sampaio a editar seus versos no Rio de Janeiro, em 1823. Tamb\u00e9m Manoel de Ara\u00fajo Porto Alegre migrou para o Rio de Janeiro, em 1837, onde desenvolveu intensa produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual. N\u00edsia Floresta, que viveu em Porto Alegre de 1833-37, realizou suas publica\u00e7\u00f5es fora da prov\u00edncia. Ana Eur\u00eddice de Barandas foi a \u00fanica a publicar em tipografia porto-alegrense sua obra O ramalhete ou flores escolhidas no jardim da imagina\u00e7\u00e3o, em 1847.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico Jos\u00e9 Ant\u00f4nio do Vale Caldre e Fi\u00e3o publicou na capital do Imp\u00e9rio, sob forma de folhetim, em 1847, o romance A divina pastora, ambientado no Rio Grande do Sul e tendo como referencial a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Sua hero\u00edna, Ed\u00e9lia, \u00e9 chamada de camponesa e de divina pastora. H\u00e1 um personagem vestido \u00e0 ga\u00facha, com grandes chilenas de prata, que deveria matar o her\u00f3i em troca de seis meses de licen\u00e7a. Em 1849, ainda no Rio de Janeiro editou em folhetim O cors\u00e1rio, inserindo termos e acontecimentos regionais. O her\u00f3i \u00e9 o vaqueano que se veste \u00e0 monarca, que significa \u00e0 maneira campeira. Monarca \u00e9 o bom campeiro. O termo ga\u00facho designa elementos armados e mal encarados, pois a palavra ainda se aplica ao marginal da \u00e1rea do campo. O di\u00e1logo reproduz termos regionais como poncho, macega, restinga, encilhado, apear-se, faxina, vargem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M. J. de Oliveira Vasques publicou pequenas pe\u00e7as teatrais, reeditando-as em 1868, com o t\u00edtulo de Produ\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, onde consta o mon\u00f3logo O ga\u00facho, repleto de termos campeiros e que termina com uma poesia sobre a vida triste que se passa na campina. O mon\u00f3logo \u00e9 humor\u00edstico, o ga\u00facho compara sua amada \u00e0s belezas de uma \u00e9gua, pois gosta de carreiras de cavalo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1865 Carlos von Koseritz editou A Campanha da prov\u00edncia do Rio Grande do Sul, exaltando os habitantes, principalmente a beleza das mulheres. Talvez por estar h\u00e1 pouco tempo na prov\u00edncia, Koseritz confundiu o ga\u00facho com o campeiro. O mesmo n\u00e3o aconteceu em seus escritos em 1883, quando o pe\u00e3o e o tropeiro n\u00e3o s\u00e3o chamados de ga\u00fachos e o habitante do Rio Grande do Sul passa a ser denominado rio-grandense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O portugu\u00eas C\u00e9sar de Lacerda encenou e publicou em 1867, em Recife, O monarca das coxilhas, drama em tr\u00eas atos sobre os costumes sul-rio-grandenses. O drama estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre o ga\u00facho, que \u00e9 maltrapilho e castelhano, e o campeiro que trabalha como pe\u00e3o. O termo ga\u00facho ainda tinha conota\u00e7\u00e3o pejorativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 1867 a 1874, Apolin\u00e1rio Porto Alegre, um dos fundadores da Sociedade do Partenon Liter\u00e1rio, publicou cinco contos que pertencem ao ciclo do vaqueano, do campeiro e do monarca das coxilhas, usando cerca de 300 termos regionais, que ele classificou como o falar do povo. Apolin\u00e1rio retratou a realidade de sua \u00e9poca, a maneira de ser do rio-grandense contempor\u00e2neo. Em 1872 escreveu O vaqueano, como resposta ao romance de Jos\u00e9 de Alencar, escrito em 1870. O vaqueano simboliza o her\u00f3i indom\u00e1vel em busca de vingan\u00e7a pela morte dos pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novo ciclo surgiu na literatura regionalista quando Lu\u00eds Alves de Oliveira Belo publica o romance Os farrapos, em 1877, onde o monarca das coxilhas passa a ser chamado de ga\u00facho, o centauro dos pampas.<\/p>\n<p>No jornal Progresso Liter\u00e1rio, de Pelotas, em 11.11.1888, consta a poesia intitulada O ga\u00facho, com os seguintes versos:<br \/>\nSoberbo, altivo, audaz,<br \/>\nBem largas bombachas traz,<br \/>\nAo lado enorme fac\u00e3o;<br \/>\nOnde a pistola se enla\u00e7a<br \/>\nP\u00b4ra afronta da humana ra\u00e7a,<br \/>\nMas n\u00e3o comete trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, o ga\u00facho hist\u00f3rico, gaud\u00e9rio e marginal \u00e0 sociedade, desaparecera como volunt\u00e1rio na Guerra do Paraguai e pelo uso de novas t\u00e9cnicas nas lides campeiras, como o uso do arame dividindo propriedades e cercando as estradas que se transformaram em corredores, onde todos os que passam s\u00e3o vistos e controlados. N\u00e3o dava mais para gauderiar cortando os campos. Em breve a linha f\u00e9rrea, transportando as tropas de gado, decretou o fim dos tropeiros. O uso da mangueira, brete e banheiro modificou o manejo do gado, n\u00e3o havia mais rodeios em campo aberto. A m\u00e3o-de-obra campeira, liberada pelas mudan\u00e7as na t\u00e9cnica do trabalho na agropecu\u00e1ria, vem para a periferia das cidades e engrossa as fileiras dos revolucion\u00e1rios e das for\u00e7as legalistas na revolu\u00e7\u00e3o de 1893-95.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00falio Prates de Castilhos instalou a ditadura positivista em 1891, continuada por Ant\u00f4nio Augusto Borges de Medeiros e terminada em 1930 com Get\u00falio Dorneles Vargas. A sangrenta revolu\u00e7\u00e3o federalista dividiu politicamente as fam\u00edlias rio-grandenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois veio a paz, veio a saudade dos tempos de ouro, onde o homem livre amava o bom sol da liberdade. Era necess\u00e1rio unir os rio-grandenses. Jo\u00e3o Cezimbra Jacques criou, em 1898, a primeira institui\u00e7\u00e3o cultural tradicionalista, o Gr\u00eamio Ga\u00facho, com o objetivo de cultuar as mem\u00f3rias dos her\u00f3is farroupilhas Bento Gon\u00e7alves da Silva e Davi Canabarro, em busca de um passado idealizado e m\u00edtico, desenvolvendo o nacionalismo e o civismo. Segundo Cezimbra Jacques e Jorge Salis Goulart, o ga\u00facho rio-grandense \u00e9 o her\u00f3i reordenado, civilizado pela est\u00e2ncia e pela cidade, o gaucho malo \u00e9 castelhano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No per\u00edodo de 1889 a 1930, a agropecu\u00e1ria atingiu novos n\u00edveis t\u00e9cnicos, liberando a m\u00e3o-de-obra no campo. Na zona de produ\u00e7\u00e3o de arroz abandonaram as foices individuais em troca de modernas ceifadeiras que percorrem os arrozais. Os campeiros se refugiam na periferia das cidades, em busca de trabalho nas f\u00e1bricas, vivendo em malocas sem esgoto, sem \u00e1gua e sem eletricidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luiz de Ara\u00fajo Filho editou, em 1898, o livro Recorda\u00e7\u00f5es ga\u00fachas, em que o campeiro \u00e9 o ga\u00facho, de vida rude pampeana, mas sempre otimista, &#8220;onde descendente de ga\u00facho, ga\u00facho era&#8221;. Confunde-se o ga\u00facho com o campeiro, o homem marginal com o integrado na sociedade rural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgiu um novo tipo de ga\u00facho m\u00edtico, o her\u00f3i fundador de uma ra\u00e7a que viveu sua idade de ouro, que foi destru\u00edda pela urbaniza\u00e7\u00e3o e pela industrializa\u00e7\u00e3o. Em 1910 Alcides Maya publica Ru\u00ednas vivas, considerando o Rio Grande do Sul decadente, no presente s\u00f3 restavam ru\u00ednas de um passado glorioso. Alcides Maya, ao cultuar o passado, criou uma imobilidade na pr\u00f3pria literatura regionalista, levando os escritores mais jovens a adotarem uma linguagem morta, com termos gauchescos. Em Alma b\u00e1rbara, o ga\u00facho \u00e9 valente, mulherengo e indiferente \u00e0 morte, conforme a quadrinha transcrita:<br \/>\nSou ga\u00facho de bom gosto,<br \/>\nMorro quando Deus quiser;<br \/>\nS\u00f3 dois prazeres conhe\u00e7o:<br \/>\nCavalo gordo e mulher (Maya, p. 59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1912, Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto publicou Contos gauchescos, em estilo pr\u00e9-modernista, usando linguagem narrativa simples e com termos regionalistas nos di\u00e1logos, e Lendas do Sul, obra inspirada no cancioneiro espanhol, contendo a lenda Salamanca do Jarau, criando a realidade fant\u00e1stica que est\u00e1 impregnada de elementos do imagin\u00e1rio rio-grandense. Suas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, como a lenda de Sep\u00e9 Tiaraju, s\u00e3o adotadas em sala de aula como se fossem a hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul.<br \/>\nO livro de contos Terra ga\u00facha, de Roque Callage, publicado em 1914, apresenta o ga\u00facho m\u00edtico transfigurado em campeiro, n\u00e3o \u00e9 mais o marginal historiado por Coni ou descrito pelos viajantes. Sua pretens\u00e3o \u00e9 de apresentar os contos como ensaios sociol\u00f3gicos e folcl\u00f3ricos, dentro de uma linha positivista de mitifica\u00e7\u00e3o do her\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ramiro Barcelos, preterido em sua candidatura a senador, vingou-se do presidente do Estado, Ant\u00f4nio Augusto Borges de Medeiros, satirizando-o no poemeto Ant\u00f4nio Chimango. Cada cap\u00edtulo inicia com a ronda, que descreve em sextilhas as lides campeiras, depois o tio Laut\u00e9rio re\u00fane a peonada e conta a hist\u00f3ria relamb\u00f3ria de um tal Ant\u00f4nio, Chimango por sobrenome. O anti-her\u00f3i \u00e9 apresentado como astuto, malicioso e intrigante, na maior s\u00e1tira pol\u00edtica escrita no idioma nacional.<br \/>\nNada mais c\u00f4mico e rid\u00edculo do que Borges de Medeiros transformado em ga\u00facho, pois, como seguidor da doutrina de Augusto Comte, tinha como utopia do progresso a sociedade industrial, ant\u00edtese dos costumes campeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luz el\u00e9trica, o bonde e o cinema trouxeram modifica\u00e7\u00f5es sociais, principalmente os filmes estrangeiros, ainda mudos, que mostravam ao povo novos valores, outras id\u00e9ias e formas de viver. Na d\u00e9cada de 1910 encontrei refer\u00eancias em jornais sobre o grupos carnavalescos de Porto Alegre, de nome &#8220;Os Fazendeiros&#8221;, fantasiados de ga\u00fachos, com botas, esporas e bombacha. Mas na d\u00e9cada seguinte, em resposta ao movimento modernista, com seu nacionalismo verde-amarelo, firmou-se o mito do ga\u00facho, cultuado como nosso ancestral. O sul-rio-grandense virou ga\u00facho, mesmo que tivesse nascido na cidade e n\u00e3o soubesse montar a cavalo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1920 M\u00facio Teixeira editou Os ga\u00fachos, um estudo do meio f\u00edsico, da hist\u00f3ria, da vida no pampa, do cancioneiro popular e com biografias de pessoas ilustres. Tra\u00e7a o perfil do ga\u00facho como um ser dotado de heroicidade selvagem, &#8220;que luta bra\u00e7o a bra\u00e7o e peito a peito, s\u00f3 regressando aos pagos coroado e condecorado de golpes e cicatrizes&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00facio Teixeira recolheu quadrinhas, que considera superiores ao de qualquer outro ponto do Brasil, pelos rasgos caracter\u00edsticos da independ\u00eancia e bravura do povo de guerreiros e poetas. O ga\u00facho \u00e9 guasca largado, o monarca das coxilhas \u00e9 alto, refor\u00e7ado, sadio, inteligente, desembara\u00e7ado, \u00e1gil, audaz, valente, franco e generoso. Considera uma injusti\u00e7a compar\u00e1-lo ao vaqueano do Piau\u00ed, ao sertanejo do Maranh\u00e3o, ao jangadeiro do Cear\u00e1, ao jagun\u00e7o da Bahia, ao tabar\u00e9u de Sergipe, ao matuto de Pernambuco, ao caipira de S. Paulo ou ao garimpeiro de Minas Gerais (Teixeira, 1920, p. 29-31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Academia Brasileira de Letras, em 1925, deu o primeiro pr\u00eamio de contos a Darcy Azambuja, pela obra No galp\u00e3o, que t\u00eam como tema o cotidiano de carreteiros, tropeiros e pe\u00e3o de est\u00e2ncia, denominados de ga\u00fachos. Azambuja n\u00e3o trata do mito, mas coloca em seus personagens sentimentos e valores elevados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1925, Vargas Neto publicou Tropilha crioula, verdadeiro hino de exalta\u00e7\u00e3o ao ga\u00facho e \u00e0s suas viv\u00eancias de campo aberto. O estere\u00f3tipo do ga\u00facho valente, mach\u00e3o, hospitaleiro e bom, passou a ser explorado pelos escritores tradicionalistas que criaram obras eruditas, com linguagem popular extinta, para serem incorporadas pelo povo como tradi\u00e7\u00e3o gauchesca. Na realidade a tradi\u00e7\u00e3o popular \u00e9 din\u00e2mica e se modifica no decorrer do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Universalmente o her\u00f3i fundador vive num mundo diferente, gauderiando no Pampa, livre como o vento Minuano que corre pelas verdes coxilhas. \u00c9 um mundo de fronteira, onde s\u00f3 o valente sobrevive, sem patr\u00e3o e sem lei, conforme o poeta popular:<br \/>\nQuem \u00e9 ga\u00facho de lei<br \/>\nE bom guasca de verdade,<br \/>\nAma, acima de tudo,<br \/>\nO bom sol da liberdade.<br \/>\nNos campos de minha terra,<br \/>\nSou ga\u00facho sem patr\u00e3o;<br \/>\nDe a cavalo, bem armado,<br \/>\nMinha lei \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o (Meyer, p. 37).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses versos, coletados por Augusto Meyer tornaram-se an\u00f4nimos e, sendo aceitos por uma tradi\u00e7\u00e3o oral, tornaram-se aut\u00eanticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra guasca \u00e9 de origem qu\u00edchua, termo dos \u00edndios charruas que significa tira de couro, mas \u00e9 usada como sin\u00f4nimo de homem livre, conforme o tema dos versos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A identifica\u00e7\u00e3o com o \u00edndio charrua foi sublimada por Alcides Lima, em 1882, quando escreveu que o gosto pela liberdade era heran\u00e7a do charrua, que n\u00e3o tinha chefe e tudo decidia em assembl\u00e9ia, como se o desejo de liberdade pertencesse unicamente a esses \u00edndios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ga\u00facho tem sua imagem sublimada, a imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica sempre seleciona o que h\u00e1 de melhor em determinada etnia, ocultando o negativo, assim at\u00e9 mesmo o mais humilde, se \u00e9 de pele mais escura \u00e9 \u00edndio. Na linguagem usada em CTG, o termo xiru, do qu\u00edchua chiru, designa um rapaz. H\u00e1 compara\u00e7\u00f5es com \u00edndios charruas na literatura gauchesca. O termo criollo \u00e9 do espanhol, significando nativo, pr\u00f3prio do lugar, como por exemplo m\u00fasica criolla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um racismo encoberto, que aflora em Severino de S\u00e1 Brito quando escreveu que os \u00edndios trouxeram dois grandes benef\u00edcios ao Rio Grande do Sul: concorreram para formar a peonada nas est\u00e2ncias, diminuindo a introdu\u00e7\u00e3o do elemento negro e ainda prestaram o servi\u00e7o de apagar essa mancha negra (Brito, p. 128-29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roque Callage publicou, em 1927, o livro de contos Quero-quero, com cenas da vida campeira, onde o campo \u00e9 melhor que a cidade e os processos gauchescos se alteravam \u00e0 for\u00e7a do tempo e do progresso. Seus ga\u00fachos se op\u00f5em ao progresso da cidade e do campo (Callage, 1927, p. 39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1937, com o Estado Novo, as institui\u00e7\u00f5es regionalistas foram extintas em face da pol\u00edtica nacionalista de Get\u00falio Vargas. Com a funda\u00e7\u00e3o do 35 CTG, em 1947, surgiu um novo ciclo do gauchismo. A produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tradicionalista \u00e9 tida como modelo de nossa tradi\u00e7\u00e3o, sendo adotada inclusive em escolas, difundindo uma realidade idealizada, transvestindo em ga\u00facho crian\u00e7as de diferentes etnias que formam o Rio Grande do Sul. Nas \u00e1reas de coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3, italiana e polonesa, onde n\u00e3o existiu o ga\u00facho hist\u00f3rico, erguem-se galp\u00f5es de Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas (CTG), onde descendentes de colonos se fantasiam de ga\u00facho e de prenda, esquecendo as tradi\u00e7\u00f5es e o folclore de seus antepassados. Prefeituras de munic\u00edpio, sem a tradi\u00e7\u00e3o do ga\u00facho, realizam rodeios, festivais de can\u00e7\u00f5es e de dan\u00e7as, destruindo muitas vezes o folclore e tradi\u00e7\u00e3o locais.<br \/>\nManoelito de Ornellas interpreta o ga\u00facho como sendo resultado de uma heran\u00e7a da cultura \u00e1rabe, tanto o uso do cavalo como a indument\u00e1ria, chegando a cometer o erro crasso de afirmar que chirip\u00e1, de origem ind\u00edgena, \u00e9 \u00e1rabe (Ornellas, 1964, p. 25-32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador e cr\u00edtico liter\u00e1rio Guilhermino C\u00e9sar admite que o Rio Grande do Sul, apesar de seus aspectos t\u00e3o brasileiros, mant\u00e9m uma cultura diferenciada, por ser um territ\u00f3rio onde se chocou a ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa com a espanhola, mantendo a fronteira sempre em armas. Autor considera o ga\u00facho mais uma express\u00e3o econ\u00f4mica do que um tipo \u00e9tnico. Os acontecimentos hist\u00f3ricos contribu\u00edram para o distanciamento entre o ga\u00facho brasileiro e o ga\u00facho platino. Aquele tornou-se sedent\u00e1rio com o trabalho da est\u00e2ncia, com vida modelada pelas t\u00e9cnicas de batalhas. A cultura diferenciada do rio-grandense \u00e9 oriunda de press\u00f5es externas da regi\u00e3o platina, enquanto que a press\u00e3o interna gerou a democracia (C\u00e9sar, 1964, p. 13-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moys\u00e9s Vellinho procura explicar as tend\u00eancias culturais e sociais do ga\u00facho atrav\u00e9s de modelos deterministas raciais. Essas tend\u00eancias estariam relacionadas com a maior ou menor contribui\u00e7\u00e3o do \u00edndio, elemento fortemente diferenciador no confronto entre os dois tipos hist\u00f3ricos do Prata e do Rio Grande do Sul. O \u00edndio entrou com um contingente maior na forma\u00e7\u00e3o do ga\u00facho argentino, contribuindo com uma &#8220;carga de \u00f3dio com que reagiu ao desprezo e \u00e0s viol\u00eancias do espanhol nas bandas platinas&#8221;. Quando os portugueses chegaram ao Rio Grande do Sul, em 1737, j\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o nativa estava rarefeita, porque os \u00edndios abandonaram as aldeias para se dedicarem \u00e0 captura do gado e seguir a demagogia caudilhesca platina. Outros fatores importantes para a diminui\u00e7\u00e3o do contingente ind\u00edgena foram a clausura missioneira, a guerra entre as tribos, a fome e a epidemia. O tratado de Madri, em 1750, provocou a derrocada das Miss\u00f5es. Vellinho insiste numa ordem pol\u00edtico-militar que necessitou de uma alian\u00e7a e amizade com o gentio. Assim, a popula\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul nunca se constituiu em aglomerado informe e sem lei, como na regi\u00e3o platina onde a antinomia campo-cidade se apresenta com viol\u00eancia, a amea\u00e7ar os padr\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o (Vellinho, 1964, p. 33-44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem simb\u00f3lica surge em decorr\u00eancia da exist\u00eancia de muitas coisas fora do alcance da compreens\u00e3o humana. O s\u00edmbolo do ga\u00facho representa um conceito que n\u00e3o se pode definir, que transcende o seu significado manifesto. A representa\u00e7\u00e3o do mito exprime, em muitas comunidades, uma experi\u00eancia que as pessoas gostariam de ter vivido, transformando-a numa fantasia inconsciente, evasiva, prec\u00e1ria, que precisa ser estabelecida com normas: tamanho da armada do la\u00e7o, coreografia da dan\u00e7a, tipos de pilchas, penteado das mo\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00edmbolo do ga\u00facho tornou-se coletivo porque usa arqu\u00e9tipos arcaicos que foram elaborados cuidadosa e conscientemente na mitologia de todas as civiliza\u00e7\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos: coragem, ousadia, alegria, indiferen\u00e7a pela morte, honestidade, honra, amor ao pago, machismo, lealdade.<br \/>\nSegundo Jung, estas imagens arquet\u00edpicas s\u00e3o instintivas, fazem parte da natureza humana. O gauchismo nada mais \u00e9 do que um fator antag\u00f4nico em decorr\u00eancia da urbaniza\u00e7\u00e3o e da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade que trouxe rupturas morais, mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es familiares, competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, dificuldade de relacionamento e reivindica\u00e7\u00f5es de grupos, de etnia e de sexo. Mas tamb\u00e9m tem um significado ideol\u00f3gico, o CTG \u00e9 organizado como uma est\u00e2ncia, patr\u00e3o, capataz, sotocapataz, pe\u00e3o e prenda. O mito do her\u00f3i formador se confunde com o latif\u00fandio de cria\u00e7\u00e3o de gado, que produz pouco emprego e pouco desenvolvimento para a regi\u00e3o. N\u00e3o se pode mexer na fazenda de cria\u00e7\u00e3o porque ela \u00e9 o modelo que seguem os tradicionalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mito do ga\u00facho \u00e9 alimentado pela m\u00eddia, em espet\u00e1culos de dan\u00e7a, m\u00fasica, canto e declama\u00e7\u00e3o. As churrascarias tamb\u00e9m abrem espa\u00e7os para artistas tradicionalistas. A ind\u00fastria de CDs colocam constantemente no mercado fonogr\u00e1fico m\u00fasicas gauchescas. Os munic\u00edpios realizam provas campeiras, concursos de dan\u00e7as e de m\u00fasicas. Lojas especializadas vendem car\u00edssimas roupas normativas para os bailes e espet\u00e1culos, movimentando este segmento comercial. Onde estes artistas, cantores, m\u00fasicos, declamadores encontrariam espa\u00e7o comercial para seus espet\u00e1culos, se o mito do ga\u00facho n\u00e3o fosse alimentado pelos poetas e pela m\u00eddia? Enquanto estes espet\u00e1culos s\u00e3o uniformizados, por causa das normas do MTG, o folclore do negro, do teuto-brasileiro, do \u00edtalo-brasileiro e do descendente de polon\u00eas ou \u00e1rabe, est\u00e3o sumindo por causa do gauchismo, at\u00e9 mesmo em munic\u00edpio que nunca teve ga\u00facho. Ser\u00e1 um simples modismo ou um esquecimento de suas ra\u00edzes? Prefiro o Rio Grande do Sul conservando seu rico e diferenciado mosaico cultural.<\/p>\n<p>Bibliografia<br \/>\nARA\u00daJO FILHO, Luiz. Recorda\u00e7\u00f5es ga\u00fachas. Porto Alegre: APLUB\/CPL\/PUCRS\/IEL, 1987.<br \/>\nAZAMBUJA, Darcy. No galp\u00e3o \u2013 contos gauchescos. Porto Alegre: Globo, 1935.<br \/>\nBELO, Oliveira. Os farrapos. Porto Alegre: Movimento\/IEL, 1985.<br \/>\nBRITO, Severino de S\u00e1. Trabalhos e costumes dos ga\u00fachos. Porto Alegre: ERUS, sem data.<br \/>\nCALLAGE, Roque. Quero-quero \u2013 cenas crioulas. Porto Alegre: Globo, 1927.<br \/>\n. Terra ga\u00facha. Santa Maria: UFSM, 2000.<br \/>\nC\u00c9SAR, Guilhermino. Ra\u00edzes hist\u00f3ricas do Rio Grande do Sul. In: Rio Grande do Sul \u2013 Terra e povo. Porto Alegre: Globo, 1964.<br \/>\nCONI, Em\u00edlio. El gaucho \u2013 Argentina, Brasil e Uruguai. Buenos Aires: Solar\/Hachete, 1969.<br \/>\nDREYS, Nicolau. Not\u00edcia descritiva da Prov\u00edncia do Rio Grande de S\u00e3o Pedro do Sul. 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Contos gauchescos. Pelotas: Echenique, 1912.<br \/>\nMAYA, Alcides. Alma b\u00e1rbara. Porto Alegre: Movimento\/Universit\u00e1rio, 1991.<br \/>\nMEYER, Augusto. Prosa dos pagos. Rio de Janeiro: Livraria S. Jos\u00e9, 1960.<br \/>\nORNELLAS, Manoelito de. As origens remotas do ga\u00facho. In: Rio Grande do Sul \u2013 Terra e povo. Porto Alegre: Globo, 1964.<br \/>\nPORTO ALEGRE, Apolin\u00e1rio. O vaqueano. S. Paulo: Tr\u00eas, 1973.<br \/>\nRODRIGUEZ MOLAS, Ricardo. Historia social del gaucho. Buenos Aires: Maru, 1968.<br \/>\nSAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ERUS\/Martins, 1987.<br \/>\nTEIXEIRA, M\u00facio. Os ga\u00fachos. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro &amp; Maur\u00edlio, 1920.<br \/>\nVELLINHO, Mois\u00e9s. Forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do ga\u00facho rio-grandense. In Rio Grande do Sul \u2013 Terra e povo. Porto Alegre: Globo, 1964.<\/p>\n<p>Retirado de\u00a0<a href=\"http:\/\/pensoquepensologodesisto.blogspot.com.br\/2012\/07\/o-mito-do-gaucho-por-moacyr-flores.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow nofollow\">http:\/\/<wbr \/>pensoquepensologodesisto.blogsp<wbr \/>ot.com.br\/2012\/07\/<wbr \/>o-mito-do-gaucho-por-moacyr-flo<wbr \/>res.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pelo Prof. Moacyr Flores A hist\u00f3ria dos povos \u00e9 rica em manipula\u00e7\u00f5es de toda a esp\u00e9cie. Estas manipula\u00e7\u00f5es fazem parte da pol\u00edtica cultural de determinada \u00e9poca e do engajamento do historiador ou do literato. 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