{"id":4650,"date":"2013-11-11T13:14:41","date_gmt":"2013-11-11T15:14:41","guid":{"rendered":"http:\/\/paulopedott.com\/paulo\/?p=4650"},"modified":"2013-11-11T13:19:03","modified_gmt":"2013-11-11T15:19:03","slug":"feudalismo-digital-engole-ou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paulopedott.com\/paulo\/?p=4650","title":{"rendered":"Feudalismo Digital. Engole ou&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Hoje que a influ\u00eancia da rede se estende a praticamente todos os dom\u00ednios da vida contempor\u00e2nea, a concentra\u00e7\u00e3o de poder \u00e9 preocupante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" alt=\"\" src=\"http:\/\/thetoddblog.com\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/Digital-Head.jpg\" width=\"386\" height=\"447\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vivemos em uma esp\u00e9cie de Feudalismo Digital, em que cada usu\u00e1rio jura fidelidade ao Senhor de seu patrim\u00f4nio tecnol\u00f3gico. Em companhias do porte de Microsoft, Facebook e Sony, o controle sobre dados e equipamentos nunca foi t\u00e3o grande nem t\u00e3o intenso. Auxiliado por tecnologias da Nuvem, essas empresas podem fazer como a Amazon, que removeu conte\u00fado de v\u00e1rios Kindles, ou como a Apple, que tirou o servi\u00e7o de mapas do Google do iPhone, sem satisfa\u00e7\u00f5es nem pedidos de desculpas.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que acontecia em tempos medievais, em que a servid\u00e3o era uma das poucas formas de sobreviv\u00eancia poss\u00edvel contra a peste, a guerra ou a fome, a depend\u00eancia atual \u00e9 volunt\u00e1ria. Declara-se fidelidade a um gigante digital atrav\u00e9s da compra de um equipamento ou da aprova\u00e7\u00e3o dos termos de servi\u00e7o em um contrato de associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um clique depois e os dados j\u00e1 n\u00e3o pertencem mais a quem os produziu. Onipotentes, oniscientes e onipresentes, as plataformas controlam os metadados e, atrav\u00e9s das previs\u00f5es calculadas a partir de volumes massivos de informa\u00e7\u00e3o, comercializam e anunciam as vontades de seus vassalos a seu bel-prazer. Quando acontece a eventualidade de uma disputa entre esses grandes senhores, os habitantes de seus dom\u00ednios sofrem, vendo destru\u00eddas, sem aviso pr\u00e9vio, boa parte de suas ferramentas de trabalho.<\/p>\n<p>Blogs mostram a que ponto os produtores de conte\u00fado se viram for\u00e7ados a preparar textos que agradem ao algoritmo, que, magn\u00e2nimo, promove os humildes em suas p\u00e1ginas de resultados. Se, por um formato, estrutura ou uso de vocabul\u00e1rio, a express\u00e3o n\u00e3o caia no gosto do algoritmo, sobrar\u00e1 a ela o ostracismo.<\/p>\n<p>At\u00e9 os governos, que como os reis do mil\u00eanio passado, eram soberanos, hoje se vem for\u00e7ados a negociar com os senhores feudais para que liberem o acesso a seus metadados. At\u00e9 que ponto a espionagem da NSA \u00e9 pior do que a feita pelo Google? Quem garante que o controle acion\u00e1rio do Facebookist\u00e3o est\u00e1 livre da compra por d\u00e9spotas pouco esclarecidos ou senhores de tr\u00e1ficos diversos?<\/p>\n<p>Redes sociais criam outro tipo de domina\u00e7\u00e3o. Ao transformarem as mensagens de sua popula\u00e7\u00e3o em fluxos cont\u00ednuos, for\u00e7am uma produ\u00e7\u00e3o incessante de conte\u00fado, que, apesar de doado, ser\u00e1 reempacotado e vendido ao melhor pagador. Sob a desculpa de dar uma escapadela de seu trabalho, muita gente leva uma vida de empregos paralelos, prejudicando a efici\u00eancia que tem com o servi\u00e7o que paga as contas em nome do trabalho free-lancer para uma rede que nunca o pagar\u00e1. Quem dedica uma hora di\u00e1ria ao Facebook termina o ano com 45 dias \u00fateis a servi\u00e7o do gigante azul, ou mais de dois meses de trabalho volunt\u00e1rio. E uma hora, vale lembrar, \u00e9 muito abaixo da m\u00e9dia de uso, que, conforme o usu\u00e1rio, passa facilmente de dez vezes essa quantia.<\/p>\n<p>Desbravadores de uma fronteira desconhecida, os gigantes da rede cresceram sem limita\u00e7\u00f5es ou par\u00e2metros, fundindo \u00e1reas inicialmente t\u00e3o distintas quanto Tecnologia, Entretenimento e Informa\u00e7\u00e3o. Ao perceber que a Lei de Moore barateava progressivamente a computa\u00e7\u00e3o, empresas de Big Data resolverem tornar o processamento de dados gratuito, trocando-o por informa\u00e7\u00f5es particulares, essas de alt\u00edssimo valor.<\/p>\n<p>Da mesma forma que o Feudalismo surgiu da fragmenta\u00e7\u00e3o dos grandes imp\u00e9rios, as novas empresas, recentes, surgem da fragmenta\u00e7\u00e3o dos grandes grupos de m\u00eddia e fabricantes de hardware, incapazes de abastecer as demandas de uma popula\u00e7\u00e3o dependente de volumes cada vez maiores de informa\u00e7\u00e3o. Trabalhando no v\u00e1cuo do poder dos velhos gigantes, novos cavaleiros aos poucos constru\u00edram seus imp\u00e9rios, estabelecendo dentro deles novos c\u00f3digos de \u00e9tica, comportamento e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Dentro do novo sistema, os &#8220;libertadores&#8221; do povo contra os bar\u00f5es da grande m\u00eddia estabeleceram novas obriga\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. Caberia a eles fornecer a infra-estrutura, contanto que seus vassalos se mantivessem ocupados a minerar e divulgar as novas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O sistema se mostrou t\u00e3o eficiente a ponto de mal ser percebido por quem est\u00e1 dentro dele. O vassalo vive confortavelmente, inconsciente de sua mis\u00e9ria. N\u00e3o h\u00e1, a n\u00e3o ser nos mais radicais, a sensa\u00e7\u00e3o de que algo est\u00e1 errado, que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma forma mais sofisticada e tecnol\u00f3gica de manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois ao contr\u00e1rio do antigo &#8220;p\u00fablico-alvo&#8221;, v\u00edtima das estruturas de comunica\u00e7\u00e3o, ao &#8220;usu\u00e1rio&#8221; \u00e9 dada a liberdade de escolha de falar o que quiser e seguir quem bem entender, desde que nunca pare de falar. Nem de seguir. Em videogames, Instagram ou Pinterest, s\u00f3 tem valor quem alimenta a m\u00e1quina incessantemente, prejudicando sua aten\u00e7\u00e3o no tr\u00e2nsito, suas horas de sono e seu conv\u00edvio com os amigos.<\/p>\n<p>Para quem se incomodar com a situa\u00e7\u00e3o, a porta da rua continua a ser a serventia da casa, deixando claro que todo o hist\u00f3rico registrado ali at\u00e9 ent\u00e3o poder\u00e1 ser indiscriminadamente destru\u00eddo. Por mais rica que fosse a propriedade digital, quem a cultivou nunca teria o direito de vend\u00ea-la ou subloc\u00e1-la. Quando muito, se sua atividade n\u00e3o fosse reprovada por seu senhor, \u00e9 permitida a ele a comercializa\u00e7\u00e3o de eventuais frutos, contanto que seja paga a devida comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do senhor feudal, que n\u00e3o podia vender ou comercializar seus servos, novas empresas e redes s\u00e3o avaliadas por VCs de acordo com o n\u00famero de &#8220;usu\u00e1rios&#8221;, uma m\u00e9trica n\u00e3o muito diferente do volume de cabe\u00e7as de gado em um pasto.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 com a Revolu\u00e7\u00e3o Comercial, no fim do per\u00edodo medieval, que os camponeses passaram a se dar conta dos absurdos cometidos. Incomodados com o excesso de intrus\u00e3o e demandas, os piratas da \u00e9poca passaram a agir como os Robin Hoods de hoje, capturando a informa\u00e7\u00e3o dos silos dos ricos na tentativa de distribu\u00ed-las aos destitu\u00eddos.<\/p>\n<p>Modelos de crowdfunding como Indiegogo, Kickstarter e Catarse desafiam colossos como Apple e Samsung. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel que uma pequena empresa derrote um gigante &#8211; muitos &#8220;empreendedores&#8221; tem em sua vis\u00e3o um deslumbramento e desejo inequ\u00edvoco de serem fagocitados pelos gigantes &#8211; mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil o cen\u00e1rio em que o conjunto de an\u00f5es force o gigante \u00e0 exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>A Idade das trevas, vale lembrar, foi um dos per\u00edodos mais longos da Hist\u00f3ria Ocidental contempor\u00e2nea. Foi preciso uma Peste Negra e algumas revolu\u00e7\u00f5es para que ela chegasse ao fim, dando lugar ao Iluminismo do qual nos beneficiamos at\u00e9 hoje. Um dos motivos que faz com que Finl\u00e2ndia, Noruega e Su\u00e9cia sejam exemplos de civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fato de que ali a servid\u00e3o nunca foi formalizada. Enquanto isso, nos ambientes mais remotos, Coron\u00e9is de todas as patentes ainda tentam sustent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em uma sociedade de informa\u00e7\u00e3o quem controla os dados tem o verdadeiro poder. \u00c9 preciso identificar o valor das ideias de cada indiv\u00edduo, libertando-o dos feudos que o exploram.<br \/>\nAfinal de contas, mais do que Tecnologia e Intelig\u00eancia Artificial, os maiores recursos da Rede Global s\u00e3o as novas linguagens e conscientiza\u00e7\u00f5es que ela permite. Este, e n\u00e3o um n\u00famero infinito de likes ou retweets, \u00e9 o verdadeiro poder da rede.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Source:\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/luliradfahrer\/2013\/11\/1369622-feudalismo-digital.shtml?fb_action_ids=10151935089051141&amp;fb_action_types=og.recommends&amp;fb_source=other_multiline&amp;action_object_map=%7B%2210151935089051141%22%3A160121004199074%7D&amp;action_type_map=%7B%2210151935089051141%22%3A%22og.recommends%22%7D&amp;action_ref_map=%5B%5D\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/luliradfahrer\/2013\/11\/1369622-feudalismo-digital.shtml?fb_action_ids=10151935089051141&amp;fb_action_types=og.recommends&amp;fb_source=other_multiline&amp;action_object_map=%7B%2210151935089051141%22%3A160121004199074%7D&amp;action_type_map=%7B%2210151935089051141%22%3A%22og.recommends%22%7D&amp;action_ref_map=%5B%5D<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje que a influ\u00eancia da rede se estende a praticamente todos os dom\u00ednios da vida contempor\u00e2nea, a concentra\u00e7\u00e3o de poder \u00e9 preocupante. &nbsp; &nbsp; Vivemos em uma esp\u00e9cie de Feudalismo Digital, em que cada usu\u00e1rio jura fidelidade ao Senhor de seu patrim\u00f4nio tecnol\u00f3gico. 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